El Cracaton Cracatos

Mais dois Big walls repetidos recentemente: No Garrafão em Teresópolis, Gabriel Cattan, Sergio ´Popo´ e Leonardo ´Popaye´ repetiram a via Crazy Muzungus (A2) em cinco dias. Já no Rio, a via Laracna (A2+) no Pico dos Quatro, na Gávea, foi escalada num total de cinco dias por Arthur Esteves, Felipe Edney e Felipe Dallorto. Arthur, havia feito em maio, junto com a Kika Bradford, provavelmente a primeira repetição da via El Cracaton Cracatos. Um artificial móvel de três enfiadas à esquerda das contenções do Corte de Cantagalo. Veja como foi. E por falar na Kika, agora em agosto, escalou a via Salathe Wall, de 34 enfiadas, no El Capitan, na California. Foram cinco dias e quatro noites na parede. (09.09.09)

cracaton01Na terça-feira, 6 de maio de 2009, Arthur Estevez e Kika Bradford repetiram a via El Cracaton Cracatos. Esta via fica perto dos pilares do Corte Cantagalo (RJ) e foi uma conquista de Julio Campanela e Eduardo Barão em 1995. Em princípio esta é a primeira repetição dessa via.

Para chegar a base é preciso fazer a chaminé do lado da Calis até uma parada tripla. Essa parada fica bem próxima aos pilares. Na primeira enfiada o guia vai ser descido de baldinho até uma chapa que fica em uma aresta. Do outro lado da aresta tem uma fenda óbvia em A2. Seguindo essa fenda chega-se em dois grampos. Mais alguns lances em cliff, passa uma chapa, mais alguns cliffs e chega-se a primeira parada (P1). O ideal é seguir até uma chapa acima da P1 para evitar o fator de queda alto e ter duas proteções fixas.

cracaton02Saindo da P1, já com a primeira chapa costurada inicia-se uma fenda óbvia. Essa fenda logo cega, então segue-se por uma fenda à esquerda. Ela é um pouco podre e as proteções não são muito confiáveis, pode ser um A2+. Antes de acabar essa fenda sai em cliff para o lado direito, mais algumas passadas em cliff e chega-se na segunda parada que fica na base do grande diedro e tem dois grampos.

Esse diedro é iniciado em livre e após algumas passadas vai entrar num A2 tranqüilo até um grampo que era o antigo fim da via. A partir desse grampo, Arthur continuou em uma fenda podre e algumas peças no “farelo” (como ele mesmo diz), alguns micros e então virou o grande diedro. Num platô ele bateu mais um grampo dando mais alguns metros a via. Segundo Arthur “Cracaton Cracatos” é uma bela via pra quem quer treinar para vias de Big Wall.

El Cracaton Cracatos 4º A2+ D3
Equipamento recomendado
1 jogo de Camalot até o 5 *
1 jogo de Camalot até o 3 *
1 jogo de Camalot até o 1
* (incluindo os micros)
1 jogo de Alien
1 jogo de Nut
1 Rurp
Cliffs : Talon, Hanger e Hoock
Tricans (Camp) até o 3

Veja o croqui. Um relato completo da aventura você pode ler no blog da Adventure Zone.

Peru 2009 – Alta Montanha, por Aleomar Gallasi

Peru01Alpamayo, Huascarán e Pisco
Ano passado, depois que voltei da Bolívia, com uma bem sucedida expedição de quatro montanhas escaladas acima dos 5.000m e uma acima dos 6.000m, comecei a pensar qual seria minha próxima expedição em alta montanha. O Peru era uma opção, mas só fui me decidir, quando lendo os e-mails recebidos da lista de discussão Hang On, encontrei o de um colega com várias dicas sobre Huaraz e suas montanhas. Não tive mais dúvida… iria mesmo para Peru02o Peru!!! Iniciei imediatamente a busca por informações mais detalhadas e constatei que o nível de dificuldade destas montanhas era bem mais elevado que as da Bolívia, então comecei a treinar… e a treinar muito.

As escaladas em alta montanha no Peru se concentram em duas cordilheiras: a Blanca e a Huayhuash. Ambas são braços da Cordilheira dos Andes e por possuírem várias montanhas íngremes e técnicas, muitas acima dos 6.000m, são consideradas por grande parte dos montanhistas, como o melhor lugar do mundo para se escalar alta montanha fora do Himalaya. Esse alto nível acabou me motivando ainda mais, pois, além de me divertir, queria estender um pouco mais meus limites.

Peru04Cordilheira Blanca

A Cordilheira Blanca por ser um pouco mais acessível e conhecida que a Huayhuash é a mais procurada. Tem 180 quilômetros de extensão por apenas 20 de largura. Localizada a norte de Lima e disposta paralelamente a 100 quilômetros do Pacífico, possui 25 montanhas acima dos 6.000m e outras 35 acima dos 5.700m. É nela que se encontram as duas mais famosas montanhas do Peru: o Huascarán 6.768m, a mais alta montanha tropical do mundo e a mais alta do país, e o Alpamayo 5.947m, considerada a “montanha mais linda do mundo” em uma exposição fotográfica realizada em Munich, Alemanha, em 1966. Eram essas duas, além do Nevado Pisco 5.752m, que eu tinha planejado escalar. Era um objetivo audacioso, mas eu estava confiante.

Peru05Nevado Pisco

Peguei o avião em São Paulo para Lima e logo em seguida o ônibus para a cidade de Huaraz, porta de entrada para Cordilheira Blanca. Cheguei em Huaraz e depois de dois dias na cidade, entre acerto de detalhes e aclimatação em Laguna Churup, parti para quatro dias de escalada ao Nevado Pisco. Das três montanhas que queria escalar, esta era a mais fácil.

Peru06Subimos no primeiro dia, Daniel (guia), Cleber (porteador) e eu, até Campo Base 4.650m, por uma trilha fácil de três horas, mas que pra mim que ainda estava começando, parecia ter levado muito mais tempo. Apartir deste Campo pode-se fazer o ataque ao cume numa desgastante jornada de 15 horas entre ida e volta, não é a melhor opção para quem quer se aclimatar, mas muitos o fazem. Eu optei por fazer da maneira mais leve, pois queria, além de curtir o visual, me aclimatar bem para o Alpamayo e o Huascarán. Subimos então no segundo dia até Campo Morena, 4.900m, e começamos a nos entrosar para iniciarmos com o pé direito nosso contato com as montanhas e o ar rarefeito, mas com a excitação acabei pondo o esquerdo na frente.

Peru07Acordamos pela madrugada, comemos alguma coisa e saímos sob vento e céu estrelado. Logo que começou a amanhecer parei para pegar minha máquina fotográfica para registrar o maravilhoso alvorecer na cordilheira, e percebi a besteira que tinha feito. Na ansiedade de se equipar e começar logo a caminhada, esqueci a bendita máquina dentro do saco de dormir. Não podia acreditar naquilo… louco para registrar meus momentos na montanha e o único equipamento que tinha para isso, havia ficado na barraca. Bem… cheguei no cume, o céu estava completamente aberto e tive que guardar apenas na memória toda aquela imensidão de montanhas lindíssimas. Demorei quase a viagem inteira para me perdoar.

Peru08Alpamayo

Depois que voltei do Pisco, descansei um dia na cidade e parti para mais 6 dias de ralação. O Alpamayo era meu maior desafio. Tínhamos decidido, Daniel e eu, de fazermos a via Francesa, a mais difícil, porém a menos perigosa de toda a parede. Ela é duas cordadas mais longa que a Via Ferrari (normal), possui inclinação constante de 75 graus, com uma última cordada empinada de 90 graus (que acabou chegando a 95 graus!), mas não possui em seu topo os temidos “seracs cai, não cai”. Se conseguíssemos, seríamos a primeira cordada a visitar o cume este ano. Quatro expedições tentaram antes (mexicanos, franceses, espanhóis e polacos), mas falharam.

Peru09Os dois primeiros dias de aproximação até campo base, são feitos pela Quebrada Santa Cruz, uma linda planície, majestosamente banhada por uma azulada laguna e ladeada por imensos paredões rochosos. É um cenário lindo e uma caminhada deliciosa.

Peru10No terceiro dia as coisas mudam bastante. O acesso para Campo 1, é feito pelo glaciar sudeste da montanha, com a escalada de uma parede de 50 graus de inclinação. O dia é puxado, mas imensamente recompensado quando no final da parede, a monumental face sudoeste do Alpamayo se apresenta com todo seu esplendor. É uma visão de tirar o fôlego. Confesso que quando cheguei ali, demorei a acreditar onde estava. Vários meses sonhando com aquela montanha e agora eu estava bem em sua frente. Fiquei parado por um bom tempo admirando toda aquela maravilha e imaginado como seria estar no seu cume. Sabia que a partir de agora a coisa não seria fácil… e não foi!

Peru11Levantamos à 0:00hs no Campo 1, nos equipamos, comemos algo e saímos, Daniel e eu, em direção à parede. Como ainda não havia rota, tivemos que abri-la com neve pela cintura. Não foi tarefa fácil, demoramos quase duas horas para chegarmos a rimaya. Já aos pés da parede descansamos um pouco, trocamos algumas ansiosas palavras e começamos a escalada. Era impagável a sensação de estar ali, escalando a “montanha mais linda do mundo”, e de saber que se conseguíssemos chegar no cume, seríamos os primeiros da temporada. Apesar do frio de -18 graus e da incrível inclinação da parede, subíamos num ritmo muito bom. Quando chegamos na última enfiada as coisas endureceram bastante. A inclinação que deveria estar em torno de 90 graus, o que já era demais, estava com 95 graus(!!) e a neve depositada acima desta parede, estava completamente fofa. Foi uma tarefa extremamente desgastante, principalmente para Daniel que ia à frente. Mas depois de quase três horas de luta para superar esta enfiada e sob tempo completamente fechado, chegamos vitoriosos no cume. Vários meses de preparação e estudo, agora eram recompensados pela conquista. Saboreamos, mesmo com visibilidade zero, toda a glória dos vencedores. Nos abraçamos e em seguida iniciamos as três horas de rapéis até o glaciar, onde chegamos sãos e salvos. No total foram cerca de 15 horas de atividade contínua. Chegamos nas barracas desidratados e eu, extremamente cansado. Minha maior conquista até hoje como montanhista.

Huascarán
Voltando do Alpamayo, descansei um dia em Huaraz e parti para mais seis dias de montanha. Estava crente que agora as coisas não seriam tão difíceis. Mas me enganei… e como!!!

Peru12O Huascarán, pela sua rota normal, não é uma montanha tão técnica, mas é longa e perigosa, bem acidentada e com enormes seracs dispostos bem acima do percurso de ascensão. Daniel, com toda sua experiência, optou por fazer a via Aresta do Escudo, uma via mais exigente que a normal, mas que saía do alcance dos enormes blocos de gelo. Esta via implicava, além de uma maior dificuldade, num ataque direto de Campo 1, ou seja, enfrentaríamos cerca de 18 horas de escalada, com uma parede bem íngreme pelo caminho. Cleber, nosso grande porteador e cozinheiro, que até então sempre nos esperava no último acampamento, iria conosco e se revelaria, mais tarde, minha grande salvação.

Peru13Nos arrumamos e praticamente sem comer, saímos às 22:30hs de Campo 1, rumo ao sopé da via. Assim que deixamos o glaciar e começamos a subida, a montanha se rebelou. O vento que até então estava brando, aumentou severamente sua força e começou a nos açoitar com grande quantidade de neve e gelo, e à medida que subíamos, a temperatura caía drasticamente. Foi quando, após quatro horas de escalada, duas enfiadas de 45 graus e já acima dos 6.100m, a situação ficou insuportável. A Temperatura tinha caído para -25 graus e com os pés congelados, as mãos debilitadas e o rosto insensível, percebi que se não saísse imediatamente da parede, correria sério risco de vida. Falei pro Daniel sobre minha situação e mais que depressa começamos a descer e foi aí, que Cleber se transformou em meu anjo da guarda. Rapelando primeiro, montava eficazmente a próxima parada com estacas e tornilhos, e me recebia com segurança no final do meu rapel. Isso facilitou sensivelmente minha situação, pois no estado em que me encontrava, tendo que ser ajudado por Daniel para passar a corda no ATC, não sei se teria condições de manusear toda aquela parafernália de equipamentos. Por fim saímos da parede sem maiores conseqüências e recebemos, quase da pior maneira, a porta na cara da montanha. Essa foi a situação mais perigosa que já passei numa montanha. Agradeci imensamente a Deus e a Virgem Maria, por voltar inteiro para a barraca.

Peru14Ao todo foram 23 dias de pura emoção. Meu muitíssimo obrigado a Daniel e a Cleber, por toda gentileza e atenção gastas comigo. Tenho a certeza que deixei dois grandes amigos no Peru.

É isso aí pessoal! Ano que vem estarei indo para os vulcões do Equador. Na volta eu relato com foi. Grande abraço a todos e até lá!!!

Huaraz
A cidade de Huaraz fica a 400 km ao norte de Lima, está a 3.100 metros de altitude e é o ponto de partida para as escaladas e trekkings em ambas as cordilheiras. Mas não pense que você está indo para uma cidade bela e tranqüila aos pés das montanhas. Huaraz, além de não ser nada pitoresca, é uma cidade muito barulhenta, com um “buzinasso” sem fim no trânsito e som alto em quase todo lugar que se entra, inclusive nos táxis e lotações. Apesar disso tem uma boa estrutura e na Avenida Luzuriaga o viajante encontra praticamente tudo o que precisa para ir pra montanha.

Para chegar a Huaraz, a melhor opção é pegar um ônibus em Lima e enfrentar oito horas de estrada. Há algumas empresas que fazem o trajeto, mas duas são as recomendadas: Mobil Tours e Cruz del Sur. Escolhi a Mobil Tours www.moviltours.com.pe. Ambas são bem seguras e seus ônibus possuem poltrona-cama e servem até um mini-almoço (mas se estiver com fome coma antes, pois não há parada durante o percurso).

Uma opção que escolhi foi pegar o vôo da TAM que sai às 8:35hs de São Paulo e chega a Lima às 11:35hs, horário que permite ainda no mesmo dia, pegar o ônibus para Huaraz que sai às 13:00hs.

Onde Comer:
Há inúmeras opções de restaurantes, mas alguns são recomendados:
– Café Andino, paralelo a Av. Luzuriaga, Rua Jirón Lucar y Torre (na esquina tem uma lavanderia)
– El Horno, próximo a Casa de Guias, no Parque del Periodista;
– Encuentro, em frente ao El Horno;

Hospedagem:
Há inúmeras opções, mas esta é muito recomendada, pois além de uma ótima pousada, é um lugar freqüentado somente por montanhistas e caminhantes, tendo muita informação sobre montanhas e trilhas. Diária s/ café da manhã 15 dólares:
– La Casa de Zarela www.lacasadezarela.com, zarelaz@hotmail.com
Rua Jirón Julio Arguedas, 1.263 próximo a Igreja de La Soledad

Lojas de equipamentos e agências:
A mais bem equipada loja de equipamentos é a Tatoo, do lado da Casa de Guias no Parque Ginebra.
Há inúmeras agências em Huaraz, aqui estão duas:
– JM Expeditions, próximo a Casa de Guias no Parque Ginebra
– Galáxia Expeditions próximo a Casa de Guias, no Parque Del Periodista.
Dicas: pergunte nas lojas e agências sobre equipamentos usados. É fácil achar boas roupas de montanhas por preços muito bons.

Guia de Montanha:
Um guia excelente, credenciado há quatro anos, com muita experiência e que recomendo com toda segurança, é Daniel Milla danieljmll@hotmail.com fone:0051-43-943601427. Para organizar melhor a expedição e saber quantos dias é necessário, entre em contato com ele e peça um cronograma das montanhas que deseja fazer.
Dica: o meu porteador se chamava Cleber, ele é primo de Daniel, é um cara MUITO forte, um excelente cozinheiro e uma pessoa muuuito gentil. Daniel tem seu telefone.

Preços:
As coisas não são muito baratas no Peru. O câmbio em Maio/Junho2009 estava em torno de 3 soles para 1 dólar.
Ônibus de Lima para Huaraz: 65 soles.
Alguns preços(por dia de expedição):
– Guia: 120 dólares p/ o Huascarán e Alpamayo e 70,0 para o Pisco;
– Porteador: 25 dólares;
– Arriero: 10 dólares;
– Mulas: 5 dólares;
– Transporte para as montanhas: não tem um preço fixo, cada táxi tem um preço diferente, mas fica em torno de 90 dólares ida e volta do Alpamayo e 50 dólares ida e volta do Huascarán;
Equipos (aluguel) preços por dia:
– Botas plásticas: 3 dólares;
– Crampon: 3 dólares;
– Piolet: 3 dólares

Aleomar Gallasi. (28.06.09)

Patagônia Argentina, por Bernardo Collares

chalten01Chalten… Local de experiências verdadeiras e intensas. Longas… muito longas caminhadas de aproximação (normalmente dias), escaladas comprometidas onde a logística é peça fundamental. Tem que entrar e sair rápido, antes que o portal invisível se feche pois o clima muda muito e quando muda é melhor não estar na parede.

Os surfistas que gostam de ondas grandes e comprometidas vão para o Hawai… os chalten02escaladores vão para Chalten buscar suas grandes ondas…

Escaladores de todo mundo rumam para la na temporada (novembro a inicio de março) para viver e lutar pela sobrevivência, buscando sonhos… mas muitas vezes encontrando pesadelos, vivendo tudo intensamente…

Para nos brasileiros tudo é novidade, não temos nada parecido por aqui. Mas a cada ano somos mais brasileiros indo e vamos aprendendo… entendendo, afinal tem muito gelo, neve, glaciar…

Esse ano fomos Kika Bradford, Sblein Mantovani eu. Lá encontramos com outros brasileiros. Passaram por lá também para escalar Edu e Luana escaladores de Santa Catarina, além dos mineiros Lugoma, Racha chalten03Cuca e Monstrão.

Essa temporada o camping Madsen estava fechado e de graça tinha só o Confluência onde é permitido ficar somente 07 dias por temporada.

No Natal Kika e eu fomos até a base da via Fonrouge na face oeste da Agulha Guillaumet. O tempo não estava bom e quando (ainda na base) o vento levantou do chão com imensa facilidade minha mochila (que naquela hora meio vazia pesava pelo menos 05 quilos)… foi o sinal para não escalar.

Mas naquelas montanhas todas as tentativas são importantes, pois vc aprende… conhece… entende e interage com aquele mundo.

O Sblein chegou e no ano novo tinha um curta janela de umas 18 horas. Resolvemos tentar a mesma Agulha Guillaumet, mas desta vez pela via Brenner. E com os conhecimentos da tentativa do natal fomos mais leves (não levamos nem grampon nem piolet por exemplo) e mais rápido, pois conhecíamos melhor o caminho.

chalten04Era dia 01.01.2009, escalada mágica onde tudo correu bem… e as 15:00 horas chegamos os 03 (juntos) pela primeira vez num cume na Patagônia.

Voltamos para a cidade a espera de uma nova janela… que veio dia 11.01.2009.

Na cidade íamos conhecendo muitas e muitas pessoas. No bar Rincon del Sur conhecemos e ficamos amigos dos donos , Sebastian, a esposa Marcela e a mágica Florencia (filha deles com 02 anos). Família essa que nos ajudou muito, inclusive a Kika depois que fomos embora e ela ficou. Encontramos ainda a galera do CEB – Centro Excursionista Brasileiro, que estavam na expedição Patagônia 2009 para comemorar os 90 anos de fundação do clube.

Bom… regime de engorda e olhando ansiosos a previsão por uma janela. Dia 07 e 08 parecia que teríamos uma janela. Enquanto Kika e Sblein foram para o Glaciar Marconi, fui tentar a Agulha de la S em solitário pela face oeste.

Fui de Chalten ate Polacos (bivaque avançado no vale do Torre). Levei umas 08 horas para chegar lá.
Caminho misto com boa parte em glaciar… e que estava totalmente diferente do ano anterior quando havia passado por ali com a Mariana Candeia. Achei os caminhos…. mas a janela não abria…. cheguei com muito vento e neve na cara… bivaquei em polacos com a noite toda nevando… e de manha voltei pra Chalten.

Na cidade confirmamos a boa janela para os dias 11 e 12… rapidamente lançamos nossas atenções para a via Claro de Luna na face oeste da Agulha Saint Exupery. Escolhe-se a escalada de acordo com o tamanho e qualidade da janela… e essa perfeita para a Claro de Luna.

Os amigos mineiros Lugoma, Racha Cuca e Monstrão, haviam ido até o passo superior… e depois fizeram uma tentativa na Agulha Guillaumet.

chalten05Assim estávamos todos mais ou menos pronto pra ir… pois nao houve descanso. Sblein com o pé destruído no poderia ir (realmente uma pena). E fomos para o vale do torre. Saímos dia 09, dormimos no Acampamento De Agostine (02 horas da cidade), onde deixamos as barracas. Dia seguinte andamos umas 08 horas ate o bivaque perto da base. Os mineiros dormiram em Niponino, pois iam para a Agulha Media Luna. Entramos na Claro de Luna… outra escalada mágica… e era a via que fui a Chalten fazer, 800m metros de pura qualidade… totalmente em móvel. Dizem inclusive que é uma das 10 melhores vias do mundo (no estilo).

Kika e eu fomos pro cume , após conseguir ultrapassar um dupla argentina bem lenta, a qual acabou dormindo na parede. Fizemos cume as 19:30 com pinta de tempo virando… o que lá não é bom, pois descer com ventos fortes é a certeza de problemas… e problemas sérios. Felizmente agilizamos bem os rapeis e a 01:00 da manha estávamos de volta ao bivaque… o tempo não virou.

Voltamos pra cidade a espera de mais uma janela… que somente ocorreu dia 23.01.2009.

“Patagônia, enfim, não é o local ideal para fantasias. Lá, seus sonhos, assim como o seu maior pesadelo, são reais” (Neto Tavares)

As aproximações tem que ser feitas de noite ou nas primeiras horas do dia, pois lá é local de muitas avalanches de neve e pedra. Na parte da manhã e a noite tudo esta mais sólido…. mas a medida que o tempo vai esquentando as avalanches começam…. e a gente na parede escutando e buscamos onde esta ocorrendo… e sempre torcendo para nunca estarmos na reta… é o dia todo ouvindo isso… o jeito é relaxar e tomar alguns cuidados.

A janela não chegava… e o dia de voltar já estava próximo.

chalten06Todo nosso equipo estava em NipoNino e quando já estávamos programados ir somente para busca-los… ameaça uma janela de poucas horas para o dia 23… mas com chuva a tarde… ou seja… não dá pra escalar.

Dia 22 as 18:30… bebendo uma Stout (cerveja escura da Quilmes)… Kika conseguiu convencer Sblein e eu a fazermos uma tentativa da Agulha Media Luna.. num bate volta..(Chalten – Chalten)… coisa de louco… ainda mais com previsão de chuva para a tarde… mas fomos.

Saímos de Chalten as 02:00 da madruga e as 10:30 estávamos na base dessa linda agulha, que é portal do Cerro Torre. Às 15:00 horas no cume numa tarde de sol (que sorte) e as 05:30 na base de volta.

Caminhamos muito na volta… e agora com todo o peso, pois levamos todo equipo de volta pra Chalten… e a 01:00 da manhã estávamos de volta a cidade. Foram 23 horas de atividade sem dormir, sendo 16 de caminhada e 07 de escalada. Pro Sblein e pra mim era fim de uma deliciosa temporada…tivemos que ir embora. A Kika ficou mais algum tempo la…. e ainda fez o cume do Mocho em cia do Edu RC (que chegou quando estávamos pra ir embora).

Além dos muitos aprendizados de montanha e de vida… nossos laços de amizades tornaram-se ainda mais sólidos. Valeu Kika… valeu Sblein… ano que vem estamos lá de novo. “Que minha mente silencie e meus pensamentos descansem, quero ser tudo o que há antes de mim. Esquecendo-se de mim mesmo, eu me torno o todo.” (03.06.09)

Bernardo Collares Arantes

Sobrevivendo no Annapurna

annapurna01

Jean-Christophe Lafaille escalando solo a via “Privilege du Serpent” (IXb), em Cëuse, França.

Jean-Christophe Lafaille como escalador esportivo encadenou 8c (XIa) e realizou o primeiro 8a+ (Xa) em solo. Como alpinista, escalou em solitário, na vertente italiana do Mont Blanc, a via Divine Providence (900m, 6b A3) e conquistou Chemin des Étoiles (1.000m, 6b A3), nas Grandes Jorasses.

Lafaille conquistou também o primeiro A5 nas paredes dos Alpes (1.000m, A5 M7 V+) e tem experiência em vias de cascatas de gelo e de dry tooling. No Himalaia, já fez sete cumes acima dos 8.000m. Mas, foi no Annapurna (8.091m) que viveu a situação mais complicada em toda sua trajetória de alpinista.

Em outubro de 1992, Laffaille e seu compatriota Pierre Beghin tentaram conquistar uma nova via na impressionante face sul do Annapurna. Depois de três dias de pura escalada, escureceu quando estavam a 7.300m, enquanto buscavam um platô que viram em fotos. Mas, em seu lugar encontraram uma placa de gelo denso e escuro com 70 graus de inclinação. Não puderam cavar um platô para montar a barraca e tiveram que bivacar pendurados pelos baudriers. Incapazes de acender o fogareiro por culpa do vento, passaram uma noite longa e amarga.

Pierre Beghin na parede em que morreria após cair do rapel.

Pierre Beghin na parede em que morreria após cair no rapel.

Na manhã seguinte, continuaram a escalada e, quando faltavam apenas 150 metros para alcançar um trecho fácil, uma nevasca impediu que seguissem avançando. Esgotados e ligeiramente fora de controle, foram obrigados a descer, arriscando muito em cada rapel. Em um determinado momento, Beghin quis rapelar em apenas um grampo de gelo, mas Lafaille insistiu em usar um de seus piolets(*1) como backup.

Dois rapéis abaixo, Beghin fez uma ancoragem que permitiria alcançar terreno menos vertical e guardou com ele o resto do equipamento. Como era complicado levar ainda os dois piolets, de mau humor, passou um deles a Lafaille, que estava mais abaixo em um platô. A fadiga, a confusão causada pela tormenta e a urgência em descer nublaram temporariamente seus anos de experiência. Exausto, Beghin jogou-se para trás sobre uma só peça e sem proteções de reforço. A peça saiu e ele sofreu uma queda fatal de 1.500 metros, levando com ele as duas cordas e todo o material.

Atônito, Lafaille olhou para baixo com a certeza de que Pierre poderia parar: “Apesar de haver muita verticalidade, achava que acabaria parando”, conta Lafaille. “Nunca esquecerei que foi o que pensei naquele momento”. Sozinho em uma das maiores paredes de montanha do mundo, ele se viu com nada mais do que uma mochila quase vazia, a roupa do corpo, um par de piolets, dois mosquetões e uma fita. Além disso, a tempestade piorava. Do ponto de vista de um espectador disciplinado, Lafaille não tinha nenhuma possibilidade de sair com vida. Certo de que sair por cima era impossível, ele desescalou por terreno misto(*2) relativamente difícil até seu último bivaque, onde estavam os 20 metros de corda que haviam deixado a 7.000 metros. Ali, sem comida e com pouco gás no fogareiro para derreter neve e obter água, passou 48 horas encurralado, enquanto a tormenta soprava com força.

Lafaille no acampamento base.

Lafaille no acampamento base.

Lafaille aproveitou os breves intervalos da tempestade para descer em curtos rapéis, usando os 20 metros de corda e toda ancoragem possível, como os espeques da barraca, cravados de dois em dois. “A soma de tudo que havia feito durante os últimos dez anos – principalmente a escalada em solitário – me tirou dessa situação. Apesar disso, tive problemas a 7.000 metros porque estava assutado, tinha medo de cair”, lembra.

As fixações de seus crampons(*3) tinham se afrouxado, pouco a pouco, mas ele estava demasiado cansado para se ocupar delas. Um dos crampons saiu e desapareceu parede abaixo. Lafaille, continuo baixando, dando saltos com a única bota com crampon que lhe restava. Milagrosamente, 150m mais abaixo conseguiu recuperar o crampon perdido, num trecho de neve fofa. A 6.600m, alcançou um trecho de 150m de cordas fixas, deixado para facilitar a descida. Somente 100m abaixo das cordas é que havia um depósito de comida e combustível. Antes de alcançá-lo, uma queda de pedras o atingiu em cheio, quebrando o seu antebraço direito, que imediatamente começou a inchar e não parou até que a manga da jaqueta impediu. “Meu moral era alto quando me dirigia para a corda fixa, porque sabia que iria sobreviver. Dez minutos depois estava mais deprimido do que nunca. Pensei que não conseguiria sair da parede…”, recorda.

Annapurna. Foto: The Adventure Blog

Annapurna. Foto: The Adventure Blog

Bivacando a 6.500m, Lafaille chegou a pensar em rolar montanha abaixo dentro do saco de dormir para acabar de vez com aquele suplício. Mas, o instinto de sobrevivência prevaleceu. “Ainda me restava um pouco e pensei que o mínimo que poderia fazer era dar tudo”. Aos 6.500m, rapelou 200m e logo deixou as cordas, porque tinha que puxá-las com muita força para fazer usando apenas um braço e a boca. Desceu um trecho de gelo de 55 graus com um único piolet. A corda que haviam deixado para passar a rimaia(*4) estava congelada e, por mais que fosse puxada, golpeada ou mordida, não se afrouxava. Este episódio custou a Lafaille um dente quebrado.

Na manhã depois do acidente, seu oitavo dia na parede, Lafaille desescalou a rimaia. Protegido de quedas de pedras pela borda negativa da rimaia e não longe do campo base, ele relaxou. Tirou o capacete, deixou a mochila de lado e ficou tombado meia hora, dizendo “Nunca mais voltarei às montanhas em toda a minha vida”. Antes do acidente, ele e Pierre percorriam facilmente o caminho da rimaia ao campo base em apenas 30 minutos. Mas, agora havia meio metro de neve. A barraca que haviam deixado no campo base avançado estava enterrada e rígida pelo gelo, Lafaille quase enlouqueceu quando não conseguiu desenterrar os víveres nela armazenados. Dirigiu-se a uma barraca de uma equipe eslovena e pegou dois tubos de mel. “Tive medo de pegar mais, agora não sei porque”. Seguiu a pegada dos eslovenos e encontrou um sherpa que trazia água e comida.

O alpinista francês Jean Christophe Lafaille autografando livros na Librería Desnivel. Foto: desnivelpress.com

O alpinista francês Jean Christophe Lafaille autografando livros na Librería Desnivel. Foto: desnivelpress.com

Depois de algumas operações no braço, meses de descanso e terapia, Lafaille começou a escalar novamente. Em 1994, voltou a escalar bem em rocha e, em 1996, subiu o Shisha Pangma e fez uma travessia, em solitário, do Gasherbrum I e II em três dias. Em 2002, fez com o espanhol Alberto Iñurrategi, a primeira repetição da Aresta Leste do Annapurna, uma via com poucas possibilidades de êxito, por ser técnica, difícil, longa e de alto risco, pois é desprotegida dos ventos. No caminho de ida e volta acamparam três dias seguidos acima dos 7.000m. Lafaille também continua em atividade escalando nos Alpes, além de trabalhar como instrutor na escola de Guias de Chamonix, na França.

Obs.: No ano de 2006, após a publicação deste artigo na revista Fator2, Lafaille desapareceu durante uma tentativa invernal, em solitário, ao Makalu (8.463m), no Himalaia. Leia mais em www.desnivel.com

(*1) Picareta utilizada para cravar no gelo.
(*2) Tipo de scalada que mistura gelo e rocha.
(*3) Travas com pontas de metal usadas na bota.
(*4) Greta na base de uma parede de gelo.

Fonte: Desnivel de nov/1993 e Jun/2001 e Alpinismo Extremo, de Mark Twight e James Martin.

1º Repetição da Raja

Via Raja, Pedra do Elefante, Petrópolis.

Via Raja, Pedra do Elefante, Petrópolis.

No sábado 5 de julho, os escaladores Bernardo Collares e Adrian Giassone fizeram a primeira repetição da Raja (7º VIIIa E3 D4). A via está localizada na Pedra do Elefante, em Petrópolis, e é uma conquista de Ralf Cortes, Márcio “Buzina”, Flávio Daflon, Ana Alvarenga, Ingo Müller e Anderson Preguiça, recentemente finalizada.

A via possui 640m, divididos em aproximadamente 16 esticões, o grau sugerido é 7º VIIIa. Os esticões mais fáceis, tipicamente de V ou VI são E3, enquanto que os mais difíceis são E1/E2. A base fica a uns 15 minutos do Abrigo do Elefante (do Ralf Cortes e Ana Alvarenga). A via é exigente, São muitos esticões de VII, variando apenas a letra. O VIII não é obrigatório, porém o problema está logo depois dele, pois há uma seqüência obrigatória bem em pé com agarras/regletes com chances de quebrar. As passadas são bonitas e a queda é limpa. É necessário estar escalando bem 7º grau e com muita vontade de escalar, pois depois de vários esticões difíceis, a seqüência mais puxada está entre P11 e P12.

Bernardo e Adrian entraram na via as 6:33, terminaram as 14:30 e optaram por rapelar, chegando na base as 16:15. Bernardo guiou toda a escalada porém sem encadenar. Uma coisa interessante é que a via quase sempre tem regletes, batentes e agarras, quase nunca fica lisa, em aderência, fugindo ao padrão de Petrópolis em geral. O rapel foi feito com 2 cordas de 60m, exige algum cuidado nos dois ou três primeiros rapeis por causa das fortes diagonais, depois é só seguir as paradas indicadas no croqui.

Saiba mais sobre a conquista da Raja, e o croqui da via. (28.07.08)

4 Faces do Pão de Açúcar

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17:44h – Bernardo Collares na base da via Waldo, 6° VIIa (A1/VIIc), 360 metros.

Na noite de sexta para sábado Flavio Daflon e Bernardo Collares fizeram as vias Waldo (6° VIIa (A1/VIIc), 360 metros), Cavalo Louco (5° VI, 270 metros), Lagartão (6° VIIa (A1/VIIc), 300 metros) e Iemanjá (4° Vsup, 430 metros). Entraram no Waldo as 17:50 com cume as 20:00 horas. Desceram no último bondinho e entraram no Cavalo Louco as 20:45 fazendo cume as 22:05h.

Desceram pelo Costão (a primeira de três descidas!) e seguiram para o Lagartão, onde começaram as 23:05h chegando ao cume às

17:44h - Bernardo Collares na base da via Waldo, 6° VIIa (A1/VIIc), 360 metros.

Horizontal da via Waldo.

01:55h. Essa foi a via que deu mais trabalho para eles, pois a parte de cima estava muito úmida, chegando a molhar a corda. Desceram de novo o Costão e foram para a base da Iemanjá onde entraram às 03:00h com cume as 04:20h.

Mais uma descida pelo Costão, que a cada vez ganhava um grau a mais em função da umidade, esta última foi descida boa parte agachados, senão era “vaca” certa.

Segundo relato do Bernardo: “Quando terminamos falei pro Flavio… da próxima vez que eu der essas idéias… me responda… NÃOOOO!”

19:02h - Bernardo Collares na horizontal do Waldo.

19:02h – Bernardo Collares na horizontal do Waldo.

E no domingo de madrugada ainda Kika Bradford e a Helena Fagundes também fizeram as “4 Faces”, pelo Waldo (6° VIIa

(A1/VIIc), 360 metros – Face Norte), Italianos com Secundo – (5° Vsup – 300 metros – Face Oeste), Stop (3° IIIsup 240 metros – Face Sul) e Bohemia Gelada (2° II – 240 metros – Face Leste). Foram 12 horas para completar a empreitada, muito bom! O Clube da Luluzinha já começa em grande estilo!

Veja as fotos dos meninos escalando a noite. (17.06.08)

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19:34h – Flavio Daflon na enfiada do artificial do Waldo.

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20:45h – Bernardo no início da Cavalo Louco, 5° VI, 270 metros.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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23:03h – Flavio na base do Lagartão, 6° VIIa (A1/VIIc), 300 metros.

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00:47h – Flavio na sombrancelha do Lagartão.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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03:42h – Bernardo no crux do Iemanjá, 4° Vsup, 430 metros.

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04:42h – Flavio e Bernardo no cume final.